Era uma vez um país de bosques negros, repleto de animais que não eram mais que vis assassinos. Onde os reis são tiranos, o ódio personificado do povo oprimido. Onde castelos não são mais que masmorras disfarçadas, em que só se consegue ouvir os gritos dos torturados e o riso sádico e tenebroso dos carrascos. Onde as princesas são feias, superficiais, e antipáticas, e os poucos princípes de coragem sucumbem perante dragões, em tentativas infrutíveras de salvá-las por quaisqueres razões que jamais se poderão conhecer. Onde fadas protectoras não passam do reflexo da imaginação dos loucos, que acabam atirando-se de penhascos sem saber como voar. Onde sapatos de cristal apertam os pés até ao ponto deles ficarem roxos, e não mais se conseguir andar. Onde um sono eterno só pode significar morte, e o apodrecer do corpo que eventualmente seria belo. Onde sete anões são tão pequenos de espiríto que acabam dançando sobre a campa duma rapariga, de pele cor de neve, que pereceu graças a uma maçã fatal. Onde ‘herói’ é uma palavra a que ainda não se deu significado, e gigantes destroem aldeias com um sopro só, sem haver que os importune. Onde o único encanto, é o que as pessoas têm pelo pecado e pelo Inferno. Onde o amor é como o de Romeu e Julieta, condenado antes de existir.
Era uma vez um mundo onde os que poucos têm, menos vão tendo, e os que nada têm são esquecidos como se ninguém fossem. Onde o poder tudo controla, e os inocentes nem se sentem controlados. Onde o local onde se trabalha nos vai matando, lenta e dolorosamente, sem que dêmos por isso. Onde os poucos valorosos caem frente a um sistema implacável e destrutivo. Onde o suicídio, tristemente, nem se trata dum acto de loucura, mas sim um acto consciente na esperança de terminar com o desespero que é viver. Onde quem decide viver, vive sempre preso por limites que o impedem de ser livre. Onde quem decide morrer é enterrado, e depois do enterro daqueles em que se a sua vida tocou deixa de existir. Onde, por vezes, se morre e já aí ninguém quer saber de nós. Onde há quem seja capaz de provocar o mal nos outros sem remorsos, como se de um monstros se tratasse. Onde os pecadores se livram do Inferno. Onde o amor está extinto. O mundo dos infelizes para sempre.